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Dados do Trabalho


Título

SABERES DOCENTES E A FORMAÇÃO EM CIÊNCIA AGRONÔMICA

Introdução

O ensino de Agronomia praticado por engenheiros agrônomos têm sido muito mais no sentido de doutrinar os estudantes a serem fiéis servidores do ingrato modelo econômico aplicado no campo, pois a própria universidade brasileira reproduz o sistema que interessa a este modelo, afinal ela é o reflexo da própria sociedade. O Engenheiro Agrônomo continua a ser formado com base numa abordagem pedagógica tradicionalista, em que os conhecimentos técnicos são repassados por especialistas, através de uma coletânea de disciplinas que são reorganizadas periodicamente nas estruturas curriculares (CAVALLET, 1999). Porém a universidade pode mudar o seu papel, através do desenvolvimento da consciência crítica, do pensamento científico e da criatividade, buscando valores como a cidadania e desvelando a realidade para preparar o profissional para um saber politécnico, integral e adequado a uma sociedade desigual (CAVALLET, 1996).
Cavallet (1996) cita que as universidades capacitam os futuros profissionais, ignorando as relações sociais de produção e a realidade rural. Ao fazerem isso, doutrinam seus alunos e esses, de forma alienada, no futuro exercício da profissão, contribuem para um aumento ainda maior das injustiças sociais decorrentes do modelo de desenvolvimento adotado no País. O modelo de desenvolvimento excludente e a educação instrumentalizada priorizam uma educação mais especializada e adequada a difusão comercial dos avanços da ciência e tecnologia em detrimento de uma educação mais integral.
A formação do agrônomo está, ao longo de sua história, intimamente ligada ao processo de transformação da agricultura. Por isso, quando se questiona a formação deste profissional e as mudanças por ela sofridas, não se pode deixar de associá-las às mudanças da própria agricultura.
Segundo Silveira-Filho (2010), com esse estudo tem-se a oportunidade de penetrar em um ambiente profissional pouco explorado, a formação acadêmica, no que se refere às pesquisas sobre as relações entre saberes docentes e processo ensino-aprendizagem.
Este artigo trata de uma investigação relacionada aos saberes docentes da educação agrícola superior, sobre suas práticas pedagógicas, com ênfase no curso de Agronomia ministrado pela Universidade Federal do Ceará – UFC, em Fortaleza.

Resumo

Este trabalho tem como objetivo investigar os saberes docentes praticados no projeto formativo do curso de Agronomia da UFC. O estudo teve como motivação a oportunidade de penetrar em um ambiente profissional pouco explorado, a formação acadêmica. Para tanto, foi realizada uma pesquisa qualitativa, delineada no estudo de caso, com abordagem descritiva, utilizando o instrumento de entrevista semiestruturada. Da conclusão, destacam-se a formação influenciada pela tendência tecnicista e, que o projeto formativo não possibilita a profissionalidade necessária para atender aos desafios e demandas atuais e emergentes do meio rural, segundo 81% dos entrevistados.

Objetivos

Este trabalho tem como objetivo investigar os saberes docentes praticados no projeto formativo do curso de Agronomia da UFC.

Este artigo trata de uma investigação relacionada aos saberes docentes da educação agrícola superior, sobre suas práticas pedagógicas, com ênfase no curso de Agronomia ministrado pela Universidade Federal do Ceará – UFC, em Fortaleza.

Material e Método

Esta pesquisa fundamenta-se na abordagem qualitativa de pesquisa em educação, complementada com a utilização de dados quantitativos surgidos durante seu desenvolvimento. Utilizou-se como delineamento, um estudo de caso, pesquisa descritiva, cujos procedimentos favorecem os objetivos propostos e visa favorecer o conhecimento aprofundado de uma realidade delimitada (Triviños, 1987), os saberes docentes praticados no projeto formativo do curso de Agronomia da UFC, em Fortaleza.
Conforme Triviños (1987), a determinação da população e da amostra constitui uma das diferenças fundamentais que existe entre a pesquisa qualitativa e quantitativa.
Para Gonsalves (2001), os sujeitos da pesquisa se referem ao universo populacional escolhido pelo pesquisador, às pessoas que fazem parte do fenômeno que o investigador pretende desvelar. A par disto, nessa pesquisa decidiu-se pela intencionalidade na definição da amostra dos sujeitos pesquisados – Docentes e Discentes das Unidades Curriculares do Curso de Agronomia da UFC.

Resultados e discussão

A partir dos fragmentos de entrevistas com os docentes e discentes das Unidades Curriculares do Curso de Agronomia da UFC em Fortaleza, apresentamos alguns resultados e suas discussões.
Inicialmente, as falas dos docentes, trata sobre a interação professor x alunos no processo ensino-aprendizagem:
Este processo está relacionado com a interação professor x aluno. Requer o estímulo à participação, a adoção de modelos renovados e dinâmicos de aulas que possibilitem maior interesse pelo estudo do conteúdo disciplinar, o conseqüente ganho de conhecimentos básicos e específicos, componentes de sua formação profissional. O sucesso deste processo dependerá de como o conteúdo programático da disciplina é abordado e o seu aprendizado é avaliado (DoUC5);
Interativo e dinâmico (DoUC6);
Na Agronomia, a maioria dos departamentos promoveu grande renovação no quadro de docentes, exceção para a Fitotecnia; os novos professores precisaram de um tempo para mostrarem a que vieram. A exemplo de cursos de Agronomia nos EUA, no nosso, os professores deveriam passar mais atividades para os estudantes, pois estes devem sair da sala de aula sabendo o que tem que fazer (DoUC7), e
É preciso haver participação e diálogo entre as partes (DoUC8).
Silva (1993) afirma que o professor universitário é considerado um especialista em sua disciplina - seu campo de conhecimento - condição essencial, inclusive, para sua admissão na universidade. Contudo, esse professor nem sempre tem conhecimentos pedagógicos fundamentais para o trabalho em sala de aula.
Ainda, sobre essa tendência conteudística, segundo Tardif (2002), dentre um número considerável de professores, não há a percepção de que existem outros saberes os quais devem lançar mão para desempenhar o ofício de professor, além dos disciplinares.
Diante dessa constatação, Tullio (1995), procurando saber as concepções que os professores tinham sobre o processo ensino-aprendizagem, verificou que a maioria dos docentes desconhece o processo.
Em seguida, as falas dos representantes discentes nas Unidades Curriculares da Coordenação do Curso de Agronomia da UFC:
Educação bancária, não dialógica, estudante sem vez, sem voz e sem opinião; a universidade aceita essas condições; a disciplina de Agroecologia é ministrada sem debater os problemas sociais pertinentes; o currículo não dá base suficiente para dar o perfil agronômico para debater com os agricultores com os movimentos sociais ou outros caminhos que a nossa profissão exige, com a nossa atualidade (DiUC1), e
Visão capitalista, bancária, falta de diálogo, falta atualização dos professores sobre metodologia, não tem discussão, exceto algumas disciplinas, aspectos sociais e extensão rural, muito pouco, insuficiente, algumas cadeiras poderiam contemplar a agricultura familiar, mas tendem para o agronegócio, para o capitalismo (DiUC2).
No que diz respeito à docência, Tullio (1995, p.11) ao pesquisar a prática pedagógica do professor de Engenharia Agronômica verificou:
Ainda, com relação ao método usado ligado à teoria da escola tradicional, outros fatores afloram nos resultados referendando essa opção: a memorização, a pequena motivação dos alunos, demonstrada também pelas suas saídas durante a aula, a avaliação em grande parte feita apenas com perguntas (só um tipo de avaliação) e a pouca oportunidade de desenvolver a criatividade do aluno;
Sobre isto, Souza, F de (2006, p.181 e 187), escreveu sobre o Curso de Agronomia da UFC:
Nos últimos 35 anos tenho testemunhado, com bastante tristeza, e denunciado com veemência, a queda inexorável na qualidade do ensino [...] Isso, aliado a uma espécie de acomodação de um corpo docente envelhecido [...] problemas pedagógicos e didáticos; corpo docente com alta titulação sem dar aulas na graduação; falta relacionamento ensino-pesquisa; infraestrutura de ensino e pesquisa obsoleta e acomodação dos corpos docente e discente, entre outros.
Ainda, sobre isto, Tullio (1989), a partir de uma pesquisa realizada na Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" - Campus de Piracicaba, da Universidade de São Paulo, para sua Dissertação de Mestrado, cujo objetivo foi estudar a adequação do ensino ministrado aos seus graduados de Engenharia Agronômica, despertou para algumas necessidades prementes, com relação ao currículo, à integração entre departamentos e à melhoria da qualidade de ensino, destacando-se a "didática" do professor como um ponto extremamente importante em todo o processo.
Diante dessa constatação, principalmente quando os graduados insistiam em que a "didática" dos professores deveria ser melhorada, Tullio (1995, p.2), em nova pesquisa, retomou o assunto, buscando obter uma visão mais aprofundada da questão e verificou que:
O ingresso do candidato na carreira docente, no curso de Engenharia Agronômica, se faz, normalmente, através dos programas de pós-graduação, privilegiando os pós-graduandos que se destacam. Outras vezes, abre-se um concurso e dá-se preferência a engenheiros agrônomos, sob o ângulo de sua especialidade técnica. O curso de graduação em Engenharia Agronômica é essencialmente técnico. As disciplinas de formação humanística, quando aparecem, são também específicas para a área de extensão rural. O futuro professor geralmente não cursou qualquer disciplina relacionada à sua formação para o magistério. Ele é colocado em sala de aula sem ter recebido noções de, pelo menos, como se processa a aprendizagem, ou onde entra o ensino, no processo.

Conclusões/Considerações Finais

Decorrente da análise dos dados e das respostas às questões da pesquisa desvelou-se as conclusões mais relevantes pertinentes ao processo ensino-aprendizagem que influenciam os saberes docentes na profissionalidade do Engenheiro Agrônomo egresso do curso de Agronomia da UFC em Fortaleza.
Os docentes do Curso de Agronomia da UFC utilizam uma metodologia expositiva e impositiva, uma pedagogia de concepção bancária, não dialógica. Não há uma conexão da teoria com a prática, os professores se sentem somente engenheiros agrônomos e acham que formando um bom técnico está formando um bom profissional. A maioria desses professores não cursou qualquer disciplina relacionada à sua formação para o magistério. São colocados em sala de aula sem terem recebido noções de, pelo menos, como se processa a aprendizagem, ou onde entra o ensino, no processo.
Essa formação é reflexo da concepção tecnicista da educação, a partir do final da década de 60, onde os cursos adequavam os profissionais às políticas modernizantes.
O resultado deste trabalho, pela sua centralidade na atenção à profissionalidade da Agronomia, poderá ultrapassar os limites acadêmicos, tornando-se uma efetiva contribuição para elaboração de políticas voltadas para o processo de formação acadêmica nesses ambientes profissionais, respeitando-se, logicamente, as características de cada um. Trabalhos nesta direção têm sido de grande importância para a realidade agrária brasileira, especialmente, no presente caso, a formação do Engenheiro Agrônomo.

Referências Bibliográficas

CAVALLET, Valdo José. A formação do engenheiro agrônomo em questão: a expectativa de um profissional que atenda as demandas sociais do século XXI. 1999. 133p. (Tese de Doutorado). USP, São Paulo-SP, 1999.
______. A formação intelectual e o mercado de trabalho: o exercício da Agronomia em questão. In: FEAB. Formação profissional do Engenheiro Agrônomo. Brasília: FEAB/CONFEA, 1996.
GONSALVES, Elisa Pereira. Conversas sobre iniciação à pesquisa científica. Campinas: Alínea, 2001.
SILVA, E.M.V.A. Competência pedagógica: Um desafio na prática do professor universitário. Educação Agrícola Superior. Brasília: ABEAS, v.11, (01): 33-50, 1993.
SILVEIRA-FILHO, José. O projeto formativo do Engenheiro Agrônomo no curso de Agronomia da UFC em Fortaleza. 2010. 183p. (Tese de Doutorado). UFC, Fortaleza-CE, 2010.
SOUZA, Francisco de. As Ciências Agrárias no Nordeste: Ensino e Pesquisa Idéias e Contribuições ao Debate. Fortaleza: Imprensa Universitária, 2006.
TARDIF, Maurice. Saberes Docentes e Formação Profissional. Petrópolis,RJ: Vozes, 2002.
TRIVIÑOS, Augusto Nibaldo Silva. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesquisa qualitativa em educação. São Paulo: Atlas, 1987.
TULLIO, A. A. A educação agrícola superior e o mercado de trabalho. 1989. 70p. Dissertação (Mestrado) - Universidade Metodista de Piracicaba. Piracicaba-SP, 1989.
______. A prática pedagógica do professor de Engenharia Agronômica. Scientia Agrícola. Piracicaba: ESALQ, vol.52, nº.3,Set./Dez. 1995.

Palavras Chave

Palavras chave: Saberes agronômicos. Formação do Agrônomo. Tendência Tecnicista. Profissionalidade.

Arquivos

Área

Grupo VIII: Educação, Sociologia e Extensão rural

Autores

JOSE SILVEIRA FILHO