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Dados do Trabalho


Título

RELAÇAO ENTRE TEORES MINERAIS E OCORRENCIA DE DANO POR CO2 EM MAÇAS ‘FUJI’

Introdução

Maçã ‘Fuji’ é susceptível ao dano por CO2 caracterizado por manchas marrom-escuro na polpa (ARGENTA et al., 1994). Por isso, a concentração de CO2 na atmosfera de armazenagem de ‘Fuji’ deve ser mantida abaixo de 0,5% e o estabelecimento de atmosfera controlada (AC) com baixo oxigênio deve ser retardado por uma a quatro semanas depois do resfriamento (ARGENTA et al., 2000). Maçãs ‘Fuji’ colhidas em estádios mais avançados de maturação e mais afetadas por pingo de mel são mais susceptíveis ao dano por CO2 (ARGENTA et al., 2002) e por isso, se recomenda maior tempo de retardamento da AC quando as maçãs são colhidas tardiamente para minimizar a incidência desse distúrbio.
A incidência de dano por CO2 em maçãs é maior em regiões de maior altitude e em anos mais frios e varia entre pomares (ELGAR et al., 1999; LAU, 1998). Efeitos de pomares sobre a susceptibilidade de maçã a diferentes distúrbios fisiológicos pode estar relacionado em parte a variações nos teores minerais na polpa (WATKINS e MATTHEIS, 2019). O papel dos teores minerais na polpa de maçãs ‘Fuji’ sobre a susceptibilidade a dano por CO2 não tem sido bem definido. Incidência de dano por CO2 em maçãs ‘Fuji pode aumentar em resposta a fertilização excessiva de potássio, dependendo do ano, mas, não é consistentemente afetada por doses de nitrogênio (ARGENTA et al., 2013).
Maçãs liberam CO2 na atmosfera de armazenagem como produto da respiração. A remoção do excesso de CO2 da atmosfera de armazenagem por equipamentos que circulam a atmosfera de armazenagem em colunas de carvão ativado e ou pela adição de cal no interior da câmara é dispendioso. Por isso, a identificação de lotes de maçãs (pomares) com maior ou menor tolerância ao dano por CO2 permitiria usara diferentes níveis de concentração de CO2 na atmosfera de armazenagem e redução dos custos de remoção do CO2 da atmosfera.
Esse estudo foi conduzido para analisar a relação entre teores minerais na polpa e incidência de dano por CO2, escurecimento difuso e podridões em maçãs ‘Fuji’ de diferentes pomares.

Resumo

Baixas concentrações de CO2 na atmosfera de armazenagem são igualmente aplicadas para maçãs ‘Fuji’ de todos os pomares embora exista grande variabilidade entre eles quanto a susceptibilidade dos frutos ao dano por CO2. A separação de lotes de maçãs ‘Fuji’ quanto a susceptibilidade ao dano por CO2 poderiam reduzir custos de armazenagem. Esse estudo foi conduzido para analisar a relação entre teores minerais na polpa e a incidência de dano por CO2 em maçãs ‘Fuji’ de diferentes pomares. Maçãs ‘Fuji’ de 47 pomares comerciais com concentrações de nitrogênio (N) na polpa entre 232 a 485 mg kg-1, teores de cálcio (Ca) entre 31 a 59 mg kg-1 e a relação N/Ca entre 4.8 a 13 foram selecionados para esse estudo. As maçãs foram colhidas no período de colheita comercial. Uma amostra de 100 maçãs por pomar foi armazenada em atmosfera controlada com 1% de O2 e 2% de CO2 para induzir dano por CO2. As maçãs foram analisadas quanto a firmeza da polpa e incidência de distúrbios após sete meses de armazenagem. Embora as correlações entre os teores de N ou Ca e a incidência ou severidade de dano por CO2 tenham sido muito baixas, elas foram estatisticamente significativas. A incidência de dano por CO2 se correlacionou mais com a relação N/Ca do que com os teores de N ou Ca. Não houve correlação significativa entre teores minerais e incidência de podridões e escurecimento difuso na polpa de maçãs ‘Fuji’ durante a armazenagem.

Objetivos

Esse estudo foi conduzido para analisar a relação entre teores minerais na polpa e a incidência de dano por CO2 em maçãs Fuji de diferentes pomares.

Material e Método

Maçãs cv. Fuji foram amostradas em 500 pomares comerciais (30 maçãs por pomar) de diferentes regiões de Santa Catariana 15 dias antes do ponto de colheita comercial, em 2003. As concentrações de nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio e magnésio foram determinadas nos frutos dessas amostras um dia após a colheita conforme descrito previamente (ARGENTA et al., 2013). A partir dessas análises selecionou-se 47 pomares com concentrações crescentes de nitrogênio. No período de colheita comercial (16 e 28 de abril) colheu-se 120 maçãs de cada pomar selecionado. Uma subamostra de 20 maçãs foi analisada um dia após a colheita quanto a maturação e teores minerais da polpa e uma subamostra de 100 maçãs foi resfriada em 24 h após a colheita, submetidas a 1,5 % de O2 e 2% de CO2 em três dias após a colheita e mantida nessas concentrações (AC, atmosfera controlada) por sete meses. A alta concentração de CO2 foi usada para induzir dano por CO2. A incidência e severidade de dano por CO2, escurecimento difuso da polpa (senescência) e a firmeza da polpa foram determinadas após a armazenagem mais um sete de maturação a 23 oC conforme descrito em (ARGENTA et al., 2020).
Os dados foram submetidos ANOVA e as relações entre teores minerais e a incidência de distúrbios fisiológicos e podridões foram determinadas pelo teste de correlação de Pearson e a significância das correlações pelo teste F.

Resultados e discussão

Na colheita, as maçãs apresentaram firmeza da polpa média de 17,1±2 lb e índice de amido médio de 6,1±1,9 (escala 1-9). Os teores de nitrogênio (N) na polpa dos frutos dos 47 pomares avaliados variaram de 232 a 485 mg kg-1 enquanto os teores de cálcio (Ca) variaram de 31 a 59 e a relação N/Ca variou de 4.8 a 13 (Figura 1).
A incidência de frutos com dano por CO2 variou de 0% a 18%, foi maior ou igual a 2% em aproximadamente 54% dos pomares e maior ou igual a 4% em 36% dos pomares (Figura 2).
Embora as correlações entre os teores de N ou Ca e a incidência ou severidade de dano por CO2 tenham sido muito baixas, elas foram estatisticamente significativas (Tabela 1). Os dados mostram que a incidência de dano por CO2 se correlacionou mais com a relação N/Ca do que com os teores de N ou Ca. Apesar da baixa correlação entre dano por CO2 e relação N/Ca considerando a análise de todos os pomares (Tabela 1) essa correlação aparentemente pode ser maior se considerar apenas pomares com incidência de dano por CO2 maior ou igual a 5% e relação N/Ca maior que sete (Figura 2, símbolos verdes). A incidência de dano por CO2 não se correlacionou significativamente com os teores de potássio, fósforo ou magnésio (dados não apresentados).
Não houve correlação significativa entre teores de minerais e a incidência ou severidade de podridões e escurecimento difuso na polpa (Tabela 2) nem entre teores de minerais e taxa de perda de firmeza da polpa durante a armazenagem (dados não apresentados).
Maçãs podem desenvolver vários distúrbios fisiológicos em resposta a estresses por excesso de CO2, por deficiência de O2, baixa temperatura e por deficiência ou excesso de umidade na atmosfera de armazenagem. Fatores pré-colheita (“fatores de pomar”) incluído a deficiência e ou excesso de minerais podem aumentar ou diminuir os riscos de desenvolvimento desses distúrbios e podridões (FALLAHI et al., 1997). A baixa correlação entre teores minerais e a incidência de dano por CO2 observada no presente estudo indica que outros fatores pré-colheita tais como maturação dos frutos na colheita, idade do pomar, carga de frutos por planta, microclima e a interação entre esses fatores podem preponderar para a variabilidade entre pomares quanto a incidência desse distúrbio. No caso de podridões, a preponderância de outros fatores pré-colheita tais como carga de inóculo, alterações anatômicas na epiderme, etc. ficaram evidentes.

Conclusões/Considerações Finais

Houve correlação significativa embora baixa entre incidência e severidade de dano por CO2 nas e a teores minerais na polpa de maçãs e ‘Fuji’.
Não houve correlação significativa entre teores minerais e incidência ou severidade de podridões e escurecimento difuso na polpa de maçãs ‘Fuji’ durante a armazenagem.

Referências Bibliográficas

ARGENTA, L. C.; BRAKMANN, A.; MONDARDO, M. Qualidade pós-colheita de maçãs armazenadas sob diferentes temperaturas e concentrações de CO2 e O2. Revista Brasileira de Fisiologia Vegetal, v. 6, n. 2, p. 121-126. 1994.
ARGENTA, L. C.; DO AMARANTE, C. V. T.; BETINELLI, K. S.; BRANCHER, T. L.; NESI, C. N.; VIEIRA, M. J. Comparison of fruit attributes of ‘Fuji’ apple strains at harvest and after storage. Scientia Horticulturae, v. 272, 2020.
ARGENTA, L.; FAN, X.; MATTHEIS, J. Delaying establishment of controlled atmosphere or CO2 exposure reduces 'Fuji' apple CO2 injury without excessive fruit quality loss. Postharvest Biology and Technology, v. 20, n. 3, p. 221-229, 2000.
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ARGENTA, L. C.; SOUZA, F. D.; NAVA, G.; AMARANTE, C. V. T.; ERNANI, P. R. Occurrence of postharvest physiological disorders in 'fuji' apples in response to orchard fertilization with nitrogen and potassium. Acta Horticulturae, v. 1012, p. 1141-1148, 2013.
ELGAR, H. J.; LALLU, N.; WATKINS, C. B. Harvest Date and Crop Load Effects on a Carbon Dioxide–related Storage Injury of 'Braeburn' Apple. HortScience, v. 34, n. 2, p. 305-309, 1999.
FALLAHI, E.; CONWAY, W. S.; HICKEY, K. D.; SAMS, C. E. The role of calcium and nitrogen in postharvest quality and disease resistance of apples. HortScience, v. 32, n. 5, p. 831-835, 1997.
LAU, O. L. Effect of growing season, harvest maturity, waxing, low O2 and elevated CO2 on flesh browning disorders in ‘Braeburn’ apples. Postharvest Biology and Technology, v. 14, p. 131-141, 1998.
WATKINS, C. B.; MATTHEIS, J. P. Apple. In: DE FREITAS, S. T. AND PAREEK, S. (Ed.). Postharvest physiological disorders in fruits and vegetables. Boca Raton, FL CRC Press Taylor & Francis Group., 2019. cap. 8, p. 165-206.

Palavras Chave

Malus domestica, distúrbios fisiológicos, podridões, nitrogênio

Arquivos

Área

Grupo I: Produção Agrícola (Vegetal)

Autores

LUIZ CARLOS ARGENTA, MARCELO JOSÉ VIEIRA, LEANDRO HAHN