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Dados do Trabalho


Título

RIQUEZA DE FUNGOS MICORRIZICOS ARBUSCULARES EM PASTAGENS DE BRACHIARIA BRIZANTHA COM PRESENÇA DE BABAÇU EM PIRAPEMAS-MA

Introdução

O babaçu (Attalea speciosa MART.) é uma palmeira que foi descrita pela primeira vez em 1823 pelo botânico naturalista Martius (PEIXOTO, 1973), é uma das espécies vegetais de grande relevância na subsistência de muitas comunidades tradicionais, já que todas as suas partes apresentam potencial de uso (LIMA et al., 2003). Nesse contexto, a função dos fungos micorrízicos arbusculares não se resume somente à nutrição vegetal, mas também está associada a uma diversidade de espécies vegetais maior e ao equilíbrio dos ecossistemas (BERBARA et al., 2006). Os FMAs também melhoram a estrutura física do solo (MARSHALL, 1962) e aumentam a agregação (LEHMANN et al., 2017), além de ter uma alta capacidade de reter metais, funcionando como agentes quelantes (PEREIRA et al., 2014). As palmeiras tropicais geralmente têm 'raízes finas' relativamente grossas e parcialmente lignificadas (VAN DER HEIJDEN et al., 2015), onde de acordo Nobre et al. (2018), os aspectos morfológicos das raízes da palmeira babaçu podem estar envolvidos na forte associação micorrízica observada nesta palmeira. Sabe-se que as plantas hospedeiras influenciam a microbiota associada nos seus arredores para seu próprio benefício através de exsudatos de raiz específicos (VAN NULAND et al., 2016). Logo, os FMAs são um dos organismos ecologicamente mais importantes do mundo. Porém, estudos sobre a ocorrência destes em ecossistemas impactados no Brasil são escassos, mas é importante conhecer FMA que ocorrem em regiões impactadas, para fornecer informações sobre espécies tolerantes a condições de estresse (MERGULHÃO et al., 2014). Nesse contexto, o objetivo desse trabalho foi avaliar a riqueza de fungos micorrizcos arbusculares em áreas com palmeira babaçu e do capim braquiária e seu papel ecológico nos pastos de consórcio de braquiária com babaçu.

Resumo

No Maranhão e nos trópicos úmidos a agricultura familiar sofre com o uso insustentável, especialmente por causa dos ciclos repetidos de corte e queima e agricultura itinerante. Nesse contexto, a palmeira babaçu consegue se adequar bem já que possui grande poder de invasão de áreas perturbadas. Os FMA, filo Glomeromycota, têm a capacidade de formar associação com as raízes de cerca de 70% de todas as espécies de plantas conhecidas. As palmeiras tropicais geralmente têm 'raízes finas' relativamente grossas e parcialmente lignificadas que frequentemente forma uma associção micorrhizica forte. Este trabalho visa avaliar as comunidades de FMA e sua estrutura taxonômica e funcional em áreas de pastagens com ‘ilhas’ da palmeira babaçu. Foram escolhidos quatro pastos com pastagens pura de Urochloa brizantha var ‘marandú’, cada um com três ‘ilhas’ de babaçu, e cada ‘ilha’ com três distâncias amostrais: ‘, ‘perto’ e ‘, a coleta amostral foi feita no final das chuvas (05/2019) em duas profundidades (0-10cm). No laboratório de Artrópodes e Microbiologia do Solo (UEMA) os glomerosporos das amostras 0-10 cm foram extraídas e feita a triagem para contagem e posterior identificação das espécies de FMA. Foram identificadas 27 espécies de FMA, onde houve maior presença dos gêneros Glomus e Acaulospora, com destaque para as espécies Glomus glomerulatum e Glomus macrocarpum. Deste modo confirmam-se os resultados de pesquisas anteriores sobre forte associação do babaçu com FMA, oferecendo assim uma explicação parcial do sucesso excepcional desta palmeira ruderal em áreas e solos degradados, pobres em nutrientes e sofrendo estresse hídrico.

Objetivos

Nesse contexto, o objetivo desse trabalho foi avaliar a riqueza de fungos micorrizcos arbusculares em áreas com palmeira babaçu e do capim braquiária e seu papel ecológico nos pastos de consórcio de braquiária com babaçu.

Material e Método

As áreas amostrais estão localizadas no município de Pirapemas (03º 43’ S, 44º 13’ W) mesorregião Norte Maranhense com clima caracterizado como tropical úmido. Esta região no Maranhão-central faz parte da ‘Zona dos Cocais’ com predominância de pastos extensivos e degradados, e com uma alta dominância do babaçu e de outras palmeiras. Foram escolhidos quatro pastos com pastagens pura de Urochloa brizantha var ‘marandú’, cada um com três ‘ilhas’ de babaçu, e cada ‘ilha’ com três distâncias amostrais: ‘dentro’ (dentro da ilha de babaçu), ‘perto’ (a 2,50 – 4 m de distância), e ‘longe’ (> 10 m distância do babaçu, a coleta amostral foi feita no final das chuvas (Maio de 2019) em duas profundidades (0-10 e 10-20 cm). No laboratório de Artrópodes e Microbiologia do Solo (UEMA) os glomerosporos das amostras 0-10 cm foram extraídas e feita a triagem para contagem e posterior identificação das espécies de FMA. As comunidades de FMA foram avaliadas em termos quantitativos(número total de glomerosporos e qualitativos ( a nível de gênero) na profundidade de 0-10, onde foram a listada as espécies, assim como o numero bruto de glomerosporos por espécie identificada.

Resultados e discussão

Foram identificadas 27 espécies de FMA distribuídas em três famílias (Acaulosporaceae, Gigasporaceae, Glomeraceae) e seis gêneros (Ambispora, Acaulospora, Funneliformis, Glomus, Scutellospora e Orbispora) ao fim do período chuvoso (tabela 2). Os gêneros com maior número de espécies foram Glomus (13) e Acaulospora (8). Os gêneros Glomus e Acaulospora ( tabela 2) apresentaram maior presença de espécies e densidade de glomerosporos nos quatro pastos amostrados, assim como também nas ‘ilhas de babaçu’ como fatores isolados (pontos amostrais ‘perto’, ‘médio ‘e ‘longe’). A predominância dos gêneros Glomus e Acaulospora também é relatada nos estudos de Angelini et al. (2012). Esses gêneros são considerados comuns, e com grande riqueza de espécies de AMF, tanto em ambientes naturais quanto em ambientes transformados por humanos, sendo capaz de se adaptar a uma ampla gama de condições ambientais (PEREIRA et al. 2014). Gêneros semelhantes aos deste estudo foram encontrados por Sonjak et al.(2009) trabalhando em região de solos com alta salinidade, verificaram a ocorrência de seis diferentes espécies de FMA, em sua maioria pertencentes ao gênero Glomus. Também, Caproni et al (2007) observaram o predomínio de Acaulospora seguido de Glomus em solos contaminados com resíduo de mineração de bauxita no Pará.
Tabela 2. Ocorrência de espécies de fungos micorrízicos arbusculares em 4 pastos a diferentes distâncias das ‘ilhas’ de babaçu, durante o fim do período chuvoso no município de Pirapemas, Maranhão.
Espécies de FMA
Acaulospora elegans
Acaulospora endographis
Acaulospora foveata
Acaulospora herrerae
Acaulospora morrowiae
Acaulospora scrobiculata
Acaulospora spinosa
Acaulospora tuberculata
Ambispora appendicula
Funneliformis geosporum*
Funneliformis halonatum
Glomus ambisporum*
Glomus glomerulatum*
Glomus macrocarpum*
Glomus trufemii*
Glomus sp1
Glomus sp2
Glomus sp3
Glomus sp4
Glomus sp5
Glomus sp6
Glomus sp7
Glomus sp8
Glomus sp9
Scutellospora calospora
Scutellospora sp
Orbispora pernambucana Posição ‘dentro’
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X Posição ‘perto’

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X Posição ‘longe’
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*espécies glomerocárpicas
O gênero Glomus apresenta maior capacidade de adaptação, demonstrando resistência a perturbações ambientais (CARRENHO, 1998). Este gênero apresenta como característica principal a produção de glomerosporos pequenos e em grande quantidade, caracterizando esta espécie como r estrategista (NOBRE et al., 2018). Além disso, é o gênero com maior número de espécies descritas e, talvez, por estes motivos seja o gênero dominante nos levantamentos de fungos micorrízicos arbusculares (NOBRE et al., 2018). Sendo que a distribuição dos FMA pode ter relação com as diferentes estratégias de sobrevivência desses fungos, alguns autores demonstraram que espécies de Acaulospora tendem a ser encontradas em solos com pH menor que 6,5 e/ou com baixo teor de fósforo (OEHL et al., 2004; GAI et al., 2006).

Conclusões/Considerações Finais

Foram identificadas 27 espécies de FMA, com predominância dos gêneros Glomus (13) e Acaulospora (8) na transição do período chuvoso/seco. Estas espécies também estiveram presente em outras literaturas em diferentes biomas, incluindo o estudo pioneiro em associação de FMA com babaçu em áreas perifericas na amazonia. Infere-se assim, que tais genêros possam ter grande relevância em áreas com presença de babaçuais.

Referências Bibliográficas

PEIXOTO, A. R. Plantas Oleaginosas Arbóreas, São Paulo. Nobel, 1973.
LIMA, E. S.; FELFILI, J. M.; MARIMON, B. S.; SCARIOT, A. Diversidade, estrutura e distribuição espacial de palmeiras em um cerrado sensu stricto no Brasil Central - DF. Revista Brasilica Botanica., v.26, n.3, p.361-370, jul./set. 2003.
BERBARA, R. L. L.; FONSECA, H. M. A. C.; FERREIRA, J. I. L.; ZATORRE, N. P. Fungos micorrízicos arbusculares em áreas no entorno do Parque Estadual da Serra do Mar e Ubatuba (SP). Revista Caatinga, v.19, p.1–10, 2006.
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VAN NULAND, M. E.; WOOLIVER, R. C.; PFENNIGWERTH, A. A.; READ, Q. D.; WARE, I. M.; MUELLER, L.; FORDYYCE, J. A.; SCHWEITZER, J. A.; BAILEY, J. K. Plant–soil feedbacks: connecting ecosystem ecology and evolution. Functional Ecology, v. 30, p.1032–1042, 2016.
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Palavras Chave

Braquiária, Solo, Planta, Hifas, Glomerosporos.

Arquivos

Área

Grupo IV: Ciências do solo

Autores

NATÁLIA DA CONCEIÇÃO LIMA , NATHALIA DA LUZ OLIVEIRA, LUANA CORRÉA SILVA, CAMILA PINHEIRO NOBRE , CHRISTOPH UNIVERSIDADE GEHRING, ADRIELY SÁ DO NASCIMENTO , WILITAN DA SILVA MARTINS, LEANY NAYRA ANDRADE RIBEIRO